Vamos falar de publicidade natalícia?
Ontem vi um anúncio natalício que me deixou completamente congelada, pelo apego à imagem de uma grande actriz, que acredito que não teria participado nesta mensagem, se tivesse reflectido sobre a mesma.
Passo a descrever o anúncio: uma idosa vê com consternação as notícias de desgraças pelo mundo, muda de canal e continuam notícias de devastação. Decide desligar o televisor na tomada e nessa, liga as luzes da árvore de natal. Vai à janela e vê os familiares a chegarem para a celebração do natalícia.
Que bom seria, se a solução para os nossos problemas (e dos outros) fosse somente desligar a televisão ou o telemóvel.
Infelizmente, a solução para o desconforto pelas injustiças globais não passa por desligar, ignorar e voltar-se para o conforto doméstico, de uma posição de privilégio. Li algures que há uma expressão para ilustrar esse comportamento - desconexão moral conveniente, eu diria que até é conivente.
Quem sofre não pode simplesmente desligar a sua realidade.
Esta mensagem publicitária reforça a ideia que os problemas globais são algo exteriores, opcionais e que basta não olhar e desaparecem. Mais, reforça a mensagem do natal no seu oposto: consumismo inconsequente e indiferença para com o sofrimento alheio.
Há quem argumente que as pessoas precisam de momentos de descanso emocional - eu sinto essa necessidade, mas não é à custa de promever a indiferença pelo sofrimento alheio.
Em Gaza já recomeçaram as mortes de crianças por hipotermia. O primeiro registo de hoje foi um bebé de 8 meses.
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O consumo é uma arma... marchar, marchar.